Israel de Freitas

Soul On Canvas

By Israel de Freitas

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                              

 

Inquietação Contos e Poesias

Editora Minerva, Março de 2006

                           

Tenho

 

Tenho dor, tenho horror,

Tenho medo…

Medo do escuro,

Do obscuro

Do normal

Do real

Do sinal

Tenho medo do redondo

Do quadrado

Do ângulo…

Do canto escuro

Da sombra,

Tenho um canto escuro

Canto da vergonha

Tenho medo de ter vergonha

Tenho vergonha de ter medo…

De sentir na carne

O desejo

Tenho medo

Tenho desejo

De rasgar a carne

Tenho unhas

Tenho medo da sujeira

Debaixo das unhas

Tenho desejo

De ansiedade

Da sociedade

Da individualidade

Da unidade

Tenho medo

Medo do ser “eu”

Inibido

Tenho medo de escrever

Medo de ler

De ser lido

Libido…

Tenho medo de ser eu

De ser tu

Tenho medo de ser

O medo

O desejo

De ser tudo

De ser o nada

Tenho medo

Do medo

De mim

Eu…

 


 

 

O poeta é

 

O poeta é a sombra da alma

É o porta-voz da paixão

É a voz que cala, é a calma

É lágrimas contadas, é canção

 

O poeta é a pena, é tinta

É a máscara por detrás da cara

É a dor mesmo que não sinta

É ferida que nunca sara

 

O poeta é a chuva que molha o rosto

É rios, vales e montes

É a terra, lama do desgosto

É o nada, é horizonte

 

O poeta é a silhueta do pecado

É carícias em palavras feitas

É na pureza o vermelho rosado

Quer tudo, e tudo rejeita

 

O poeta é a pura simplicidade

Na palavra sem vaidade, lealdade

O poeta é aquilo que avassala

Sua louca intimidade

 


Jardim de nós

 

 

Que os guardiães dos sonhos,

Que apunham gládio estreladas,

Com asas em olhares medonhos

Cubram teu rosto, lua encantada.

 

O teu pisar de bela princesa

Sobre as folhas de versos Outonos

Vidas nascem sob tua lindeza

Florescem lírios em jardins profanos

 

Me estendo ao som de tua voz,

Minh'alma desfaz-se em pureza.

Num canto aves raras, atroz

 

No sol que circunda teus beijos,

Dourada aurora matinal

Neste jardim, jardim de nós.

 


O verbo se fez carne

 

 

O verbo se fez carne,

Rasgada, repartida…

A alma se fez sangue,

E a vida foi bebida.

 

O verbo se fez carne,

E habitou entre nós…

Morreu dentre eles,

Por nós, por vós.

 

O verbo se fez carne,

E nunca mais houve fome…

Em terra de condenados,

Terra de um só homem.

 

O verbo se fez carne,

E a carne se fendeu…

A alma se fez anjo,

E o homem se fez deus…


Agora que sou eu

 

 

Agora que o mar é mar,

Deixe-me cantar

Deixe-me correr a serpentear

Rasgar os céus a nadar

Abrir-me e gritar

 

Agora que a terra é pó,

Deixe-me só

Deixe-me sem dó

 


Deixe-me viver esse caos

Deixe-me cegar o nó

 

Agora que o sol é mundo,

Deixe-me mergulhar nesta terra

Me misturar imundo

Pisar o ódio e bradar

Agora que eu sou eu,

E não um simples sonhar

 

 

 

Nu e cru

 

Não sou poeta, e muito menos cantor

Em meu rosto não descem lágrimas,

Nem em minha alma se acha dor

 

Em meus jardins não crescem flores

Das aves nem ouço rumores,

Nem horizonte tenho para o sol se por

 

Não conheço fábulas nem conto histórias

Nem batalhas, derrotas ou vitórias,

Inocência, brancura pura de horror

 

Não acredito em milagres, anjos nem cruz

Nunca vi deus, mas só aquilo em que ele me reduz,

Não sou ovelha, nem lobo e muito menos pastor

 

Não sou como a semente que morre e torna a crescer

Nem mesmo sei se nalgum dia cheguei a nascer,

E meu maior pecado é não ser um pecador

 

Se vim da terra, sou pó, sou o nada

Um simples verso ou quem sabe uma melodia cantada,

Ou ainda um pedaço de tudo sem cor nem sabor

 

Não seria um deserto se não houvesse oásis

Nem uma ovelha indefesa se não existisse lobos vorazes,

Nem seria a paixão se não conhecesse o amor

 

 


 

 

Voz da noite

 

 

Esta noite veio-me uma voz

Simplesmente ignorei-a sem saber

Citando-me versos aos milhares

Em minha meninice deixei-me adormecer

 

Entre versos revoltos e sonetos

Numa penumbra palpável indissolúvel

Rolava no leito de minha tolice

A lutar contra este “eu” vulnerável

 

Sabia que não poderia contar com a minha memória

Mas deste facto havia me esquecido, é verdade

A porfiar em gozar um sonho fosco

E a faltar com a minh’alma em lealdade

 

Agora no vazio em que me acordo

Suplico delírios a deuses reverenciados

Nem ao menos um verso me recordo

De que me vale papel e tinta se jazo acordado

 


Carro de carretel

 

No quintal de minha infância

Onde a imaginação é mundos e cidades

Corria com desejo afoito de voar distâncias

Saltitando como um pardal e suas vaidades

 

Não era preciso muito e nem pouco

Para que meu génio fosso realizado

Tudo era tudo e eu era o louco

Com meu mundo de fartos ocos

 

Pregava, torcia e atava

Com pedaços de pau e cordel

Era já num piscar de olhos

E lá se ia o meu carro de carretel