
Inquietação Contos e Poesias
Editora Minerva, Março de 2006
Tenho
Tenho dor, tenho horror,
Tenho medo…
Medo do escuro,
Do obscuro
Do normal
Do real
Do sinal
Tenho medo do redondo
Do quadrado
Do ângulo…
Do canto escuro
Da sombra,
Tenho um canto escuro
Canto da vergonha
Tenho medo de ter vergonha
Tenho vergonha de ter medo…
De sentir na carne
O desejo
Tenho medo
Tenho desejo
De rasgar a carne
Tenho unhas
Tenho medo da sujeira
Debaixo das unhas
Tenho desejo
De ansiedade
Da sociedade
Da individualidade
Da unidade
Tenho medo
Medo do ser “eu”
Inibido
Tenho medo de escrever
Medo de ler
De ser lido
Libido…
Tenho medo de ser eu
De ser tu
Tenho medo de ser
O medo
O desejo
De ser tudo
De ser o nada
Tenho medo
Do medo
De mim
Eu…
O poeta é
O poeta é a sombra da alma
É o porta-voz da paixão
É a voz que cala, é a calma
É lágrimas contadas, é canção
O poeta é a pena, é tinta
É a máscara por detrás da cara
É a dor mesmo que não sinta
É ferida que nunca sara
O poeta é a chuva que molha o rosto
É rios, vales e montes
É a terra, lama do desgosto
É o nada, é horizonte
O poeta é a silhueta do pecado
É carícias em palavras feitas
É na pureza o vermelho rosado
Quer tudo, e tudo rejeita
O poeta é a pura simplicidade
Na palavra sem vaidade, lealdade
O poeta é aquilo que avassala
Sua louca intimidade
Que os guardiães dos sonhos,
Que apunham gládio estreladas,
Com asas em olhares medonhos
Cubram teu rosto, lua encantada.
O teu pisar de bela princesa
Sobre as folhas de versos Outonos
Vidas nascem sob tua lindeza
Florescem lírios em jardins profanos
Me estendo ao som de tua voz,
Minh'alma desfaz-se em pureza.
Num canto aves raras, atroz
No sol que circunda teus beijos,
Dourada aurora matinal
Neste jardim, jardim de nós.
O verbo se fez carne,
Rasgada, repartida…
A alma se fez sangue,
E a vida foi bebida.
O verbo se fez carne,
E habitou entre nós…
Morreu dentre eles,
Por nós, por vós.
O verbo se fez carne,
E nunca mais houve fome…
Em terra de condenados,
Terra de um só homem.
O verbo se fez carne,
E a carne se fendeu…
A alma se fez anjo,
E o homem se fez deus…
Agora que o mar é mar,
Deixe-me cantar
Deixe-me correr a serpentear
Rasgar os céus a nadar
Abrir-me e gritar
Agora que a terra é pó,
Deixe-me só
Deixe-me sem dó
Deixe-me cegar o nó
Agora que o sol é mundo,
Deixe-me mergulhar nesta terra
Me misturar imundo
Pisar o ódio e bradar
Agora que eu sou eu,
E não um simples sonhar
Não sou poeta, e muito menos cantor
Em meu rosto não descem lágrimas,
Nem em minha alma se acha dor
Em meus jardins não crescem flores
Das aves nem ouço rumores,
Nem horizonte tenho para o sol se por
Não conheço fábulas nem conto histórias
Nem batalhas, derrotas ou vitórias,
Inocência, brancura pura de horror
Não acredito em milagres, anjos nem cruz
Nunca vi deus, mas só aquilo em que ele me reduz,
Não sou ovelha, nem lobo e muito menos pastor
Não sou como a semente que morre e torna a crescer
Nem mesmo sei se nalgum dia cheguei a nascer,
E meu maior pecado é não ser um pecador
Se vim da terra, sou pó, sou o nada
Um simples verso ou quem sabe uma melodia cantada,
Ou ainda um pedaço de tudo sem cor nem sabor
Não seria um deserto se não houvesse oásis
Nem uma ovelha indefesa se não existisse lobos vorazes,
Nem seria a paixão se não conhecesse o amor
Esta noite veio-me uma voz
Simplesmente ignorei-a sem saber
Citando-me versos aos milhares
Em minha meninice deixei-me adormecer
Entre versos revoltos e sonetos
Numa penumbra palpável indissolúvel
Rolava no leito de minha tolice
A lutar contra este “eu” vulnerável
Sabia que não poderia contar com a minha memória
Mas deste facto havia me esquecido, é verdade
A porfiar em gozar um sonho fosco
E a faltar com a minh’alma em lealdade
Agora no vazio em que me acordo
Suplico delírios a deuses reverenciados
Nem ao menos um verso me recordo
De que me vale papel e tinta se jazo acordado
No quintal de minha infância
Onde a imaginação é mundos e cidades
Corria com desejo afoito de voar distâncias
Saltitando como um pardal e suas vaidades
Não era preciso muito e nem pouco
Para que meu génio fosso realizado
Tudo era tudo e eu era o louco
Com meu mundo de fartos ocos
Pregava, torcia e atava
Com pedaços de pau e cordel
Era já num piscar de olhos
E lá se ia o meu carro de carretel